quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Hilariante. Não fosse a gravidade do caso, seria hilariante

Nas férias de Natal que fui passar a Portugal encontrei as ruas inundadas por um misterioso anúncio…

“Era uma vez…” começava, em letras garrafais em fundo rosa-chock, “70% das mulheres não tomam a pílula contraceptiva” como deve de ser (não me lembro das palavras exactas). Terminava, em letras bastante mais pequenas, “blá-blá-blá, e seja feliz para sempre”, como nas histórias em que a princesa encontra o seu príncipe – a diferença é que na realidade, ao contrário das histórias de encantar, o príncipe (ou os príncipes) já não é suficiente: segundo o anúncio, há um qualquer produto da Schering-Plough absolutamente indispensável para garantir a felicidade eterna. Que estava relacionado com um novo método contraceptivo, não restavam dúvidas. Sobre a empresa que o comercializava, também não. Mas os mupis não revelavam o mais importante: o nome do produto.

É uma estratégia de publicidade: procura-se captar a atenção dos consumidores (neste caso, das consumidoras) com um primeiro anúncio que não revela o produto (antes, apela, por exemplo, a um estado de bem-estar, como o infantilizante “viver feliz para sempre”), deixa-se a curiosidade em banho-maria durante uns tempos, e depois volta-se ao ataque com um anúncio que finalmente satisfaz o desejo (nessa altura, só será verdadeiramente saciado com a compra do produto…), revelando o produto anunciado, incógnito, inicialmente.

Voltando ao princípio. Não imune à curiosidade, fiz uma breve pesquisa na Internet, com palavras chave do anúncio, entre as quais o nome da farmacêutica. Logo por azar (não para mim!), as palavras “70” “mulheres” “pílula” e “Schering-Plough” conduziam a uma hecatombe de notícias de um acontecimento muito recente no Brasil. Que não é simpático:

1. Schering é novamente condenada a indenizar consumidora que ...
15 Dez 2008 ... O Laboratório Schering do Brasil Química e Farmacêutica Ltda. deverá pagar indenização no valor de R$ 70 mil, por danos morais, ...
2. Pílula de farinha: Schering é condenado a pagar indenização de R ...
30 Nov 2007 ... Cerca de 200 mulheres teriam ficado grávidas, mas poucas delas, cerca de 10, que conseguiram comprovar na Justiça que tomaram as pílulas do ...

A história é simples: graças a umas pílulas contraceptivas (que de contraceptivo só tinham o nome na embalagem) colocadas no mercado brasileiro pelo Laboratório Schering do Brasil, cerca de 200 mulheres teriam ficado grávidas inesperadamente. Supostamente, chegaram ao mercado comprimidos resultantes do teste de uma máquina embaladora do laboratório, que deveriam ter sido eliminados. Um “pequeno” desleixo, portanto.

É curioso que o anúncio da Schering-Plough em Portugal fale nas supostas 70% das mulheres que se esquecem de vez em quando de tomar a pílula como deve de ser, quando a empresa do mesmo grupo no Brasil se tinha "esquecido", em 1998, de eliminar pílulas sem substância activa… Sabendo tudo isto, a empresa parece pouco credível, e não tem autoridade para falar em quem se esquece de tomar a pílula. Quem pode confiar nesta empresa, quando apresenta, agora, um nova forma de evitar gravidezes indesejadas?



Pesquisando agora de novo sobre outro assunto, chega-me novamente uma notícia do género das anteriores, mas desta vez foi-se a tempo de evitar o pior:

Pílula anticoncepcional Nociclin é proibida em SP
(“exames do Instituto Adolfo Lutz que revelaram problemas em amostras do produto, que poderiam tornar ineficaz a prevenção da gravidez”)

2 comentários:

  1. Oi, Raposa astuta!!!! Parabéns pelo blog!!! Ñ é de hoje que as mulheres sao cobaias de todas as porcarias da indústria farmaceutica. Algo que me causou estranheza foi a campanha de vacinaçao contra cancer de colo de útero. Na França as vacinas foram oferecidas pelo governo (compradas do laboratório que as produziu). Mais um filao para as farmaceuticas. Quais as consequencias disso nas humanidade? Talvez nunca saberemos...

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