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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Modas e sapatos

É engraçado que ainda hoje estava precisamente a explicar a uma pessoa, no meu castelhano ainda um pouco limitado, que o meu blog não era para quem gosta exclusivamente de moda e penteados…
Pois vamos lá então falar de moda e sapatos!

Já andaram de sapatos de salto bem alto? Pronto, salto médio. Já? Se ainda não, experimentem (sobretudo os homens). Não estou a gozar, há coisas que não se podem imaginar, e a experiência dos saltos-altos é uma delas. Uma coisa é vê-las andar com eles, outra é andar montado (literalmente) neles. Nada que ver, como dizem nuestros hermanos.


Então é assim: são muuuuito desconfortáveis, comprimem os dedos, deformam a curvatura normal da coluna, e sobretudo obrigam a um esforço sobre-humano (as mulheres são excepcionais nisso) para manter o equilíbrio. Basta olharem com atenção para a forma como uma mulher anda, quando montada nuns saltos bem altos. Não há nada mais deplorável, pois o andar torna-se artificial (os joelhos sempre dobrados, já repararam?), pouco fluído, desconcertante. É verdade que há quem ande como uma princesa, com sorriso guapo nos lábios e tudo, mas o pensamento, em qualquer dos casos, é sempre o mesmo: à semelhança de quem passa por momentos muito dramáticos, e por isso mesmo vive “um dia de cada vez”, quem está no alto dos saltos, tem “um pé de cada vez” na cabeça. Há que equilibrar um pé de cada vez, colocar um pé de cada vez na calçada - malditas pedras com buraquinhos que só ela vê! Não dá para pensar em mais nada! É verdade! Daí que andar de saltos altos seja a melhor forma de evitar pensar (noutras coisas). Ah, o que eu gosto dos meus sapatinhos rasos e confortáveis…!

“Comprei um vestido nos saldos da Zara por 5€. Mostrei p’ra minha amiga do Brasil que me disse que lá custava duzentos e tal reais… uns 100€!”. Quando a Mariana me contou isto, lembrei-me do que tinha lido da Zara na China: lá, ao contrário de cá, a Zara é roupa de moda cara, porque não se pretende que qualquer pessoa a possa comprar (sobretudo as operárias da fábrica onde é feito quase tudo, imagino…). E percebi hoje, falando com outra pessoa, que não só no Brasil a estratégia é a mesma, mas em toda a América Latina.

Isto dá que pensar… aqueles trapitos não custam o valor da produção mais um lucro comum a qualquer actividade. Não, custam o valor que querem que lhes atribuamos. Certamente que os modelos vendidos na China e América Latina não têm melhores acabamentos, serão exactamente iguais o vestido dos saldos da minha amiga em Espanha, e o outro do Brasil. Serve isto para ver melhor, pelo facto de pagarmos mais barato por um mesmo produto que noutras regiões é caro, a forma como nos podem manipular, convencendo-nos que estamos a comprar um produto de luxo, só porque o preço nos faz ter essa percepção.


E a reflexão continuaria indefinidamente. É que tem “pano para mangas”!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"arrisca-se a ser a primeira mulher"

As palavras que usamos importam.

Perante uma mesma situação, a percepção que diferentes pessoas têm pode ser distinta, daí que as expressões usadas para a descrever também poderão ser, em casos extremos, opostas. Não é o mesmo “sofrer” ou “ganhar”, “arriscar-se” ou “candidatar-se”, ou ainda “ser desafiado a”.

Espantado? Pois saiba que não fui buscar estes exemplos à toa, como poderá comprovar se continuar a ler. Entretanto chamava a sua atenção para o facto de se poder utilizar uma expressão negativa (quando se refere a uma facto aceite universalmente como positivo) deliberadamente, ou seja, para criar no leitor ou ouvinte uma percepção negativa.

Há pouco tempo, uma pessoa conhecida comentava-me o absurdo da expressão “sofrer um aumento” relativa às pensões nacionais, expressão essa que ouvira num telejornal mais sensacionalista. Quando estamos a viver fora de Portugal, como é o meu caso, estas situações saltam mais à vista, fruto de uma observação diferente devido à distância.

Ás vezes parece que há jornalistas que se crêem arautos da desgraça, e ficam confundidos e baralhados, quando a notícia que têm de dar “até” é positiva. Vai daí, contornam a coisa, e usam uma expressão conotada negativamente – não se deixam derrotar! Ou seja, aumentos nas pensões “sofrem-se”, tal como os aumentos na Euribor para quem paga a sua casa ao banco. Obviamente, este canal de televisão é bastante sensacionalista, e parece ver tudo com uma lupa que distorce e até parece inverter a realidade, ao relatar o aumento de uma pensão como algo que se sofre.

Mas há mais exemplos. O que se segue talvez até tenha sido produzido de forma inconsciente, mas o resultado é, no mínimo, de muito mau gosto. No mínimo. Descobri-o na página de Internet da TSF. Sobre a possibilidade de uma mulher tomar as rédeas do poder na Islândia, dizia o seguinte: “Lésbica assumida, Johanna vive com uma jornalista e arrisca-se a ser a primeira mulher líder do governo islandês.” Lá está de novo: arrisca-se! Efectivamente, sendo mulher e ainda por cima lésbica, Sigurdardottir corre grandes riscos se assumir a liderança do governo da Islândia. Ou talvez o que se pretenda dizer é que se arrisca a ser a primeira mulher. Caramba, é realmente arriscado! Sabe-se lá o que poderá acontecer (a ela?... ou à política?...). Johanna, não quereria reconsiderar? Bolas, parece que já lá está!